Escândalos, economia, instituições e soberania
Artigo de opinião
Por Leandro Sauerbronn França
Outubro de 2026
Introdução
Em 2003, o PT chegou ao Planalto com a promessa de mudar a forma de fazer política no Brasil. Duas décadas depois, o partido volta à disputa presidencial carregando um balanço que os eleitores têm o direito de examinar por inteiro: escândalos de corrupção nos três Poderes, um legado econômico de dívida e dependência, relações políticas que levantam questões legítimas, o uso do aparato estatal sobre quem produz e quem critica, e uma posição internacional que isola o país em temas de segurança e defesa.
Este artigo reúne cinco partes que se complementam. A Parte I trata dos escândalos, com ênfase nas estatais. A Parte II, da economia e da dependência de transferências, sobretudo no Norte e no Nordeste. A Parte III, das companhias políticas do partido, do Foro de São Paulo ao MST. A Parte IV, do Estado usado como instrumento sobre tribunais, fiscais, ciência e território. A Parte V, do enfraquecimento das Forças Armadas, da influência chinesa e do isolamento do Brasil no combate ao narcotráfico.
Parte I – Os escândalos nos três Poderes – Vinte anos de PT
Todo partido que governa por muito tempo acumula escândalos. A questão que importa ao eleitor é outra: o que se aprendeu, quem respondeu pelos erros e o que mudou depois de cada episódio. Em mais de vinte anos de PT na cena nacional, com mais de 13 anos de Lula e Dilma no Planalto entre 2003 e 2016 e o retorno de Lula em 2023, o país assistiu a uma sequência de casos que atravessa Executivo, Legislativo e Judiciário. Alguns resultaram em condenações pesadas. Outros foram desfeitos por razões processuais. Outros ainda seguem em apuração.
O padrão se repete como um roteiro: o esquema vem à tona, o partido nega e denuncia perseguição, a Justiça condena, e anos depois uma parte dessas decisões é anulada por falhas de competência, de procedimento ou de imparcialidade. No fim, o cidadão tem dificuldade de responder a uma pergunta simples: o que aconteceu e quem pagou por isso?
Esta primeira parte lembra fatos, distingue o que foi julgado do que foi anulado e do que ainda corre, e dá atenção especial a um capítulo que costuma ficar em segundo plano: o uso das estatais como instrumento de poder. Petrobras, Correios, fundos de pensão e bancos públicos são patrimônio de todos os brasileiros, e foi neles que o dano ao cidadão comum se mostrou de forma mais concreta.
O Mensalão: o ensaio geral
Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson, do PTB, denunciou um esquema de pagamentos mensais a parlamentares em troca de apoio ao governo. A crise ganhara força semanas antes, com a divulgação de um vídeo em que um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, aparecia recebendo propina. Foi a partir dessa estatal que se puxou o fio de um novelo que acabaria derrubando o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
O julgamento da Ação Penal 470, concluído em 2012, foi um marco. O Supremo Tribunal Federal condenou José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro Delúbio Soares, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, além de operadores do publicitário Marcos Valério e dirigentes do Banco Rural. Pela primeira vez, a cúpula de um partido de governo foi para a cadeia por corrupção. O relator foi Joaquim Barbosa, ministro indicado pelo próprio Lula, fato que o PT jamais soube explicar dentro da tese de que o Judiciário seria uma máquina de perseguição.
Lula nunca foi denunciado no Mensalão. Disse ter sido traído e que o PT havia feito o que é feito no Brasil sistematicamente, numa frase de 2005 que ficou famosa. Mas o episódio deixou lições que o partido não incorporou. A principal é que o apoio parlamentar ao governo podia ser financiado por fora, com dinheiro de origem opaca, e que o aparelhamento de estatais e fundos era caminho natural para isso.
Os Correios: do vídeo que abriu a crise ao prejuízo que não fecha
Os Correios estão no começo e no fim desta história. Em 2005, a empresa foi a porta de entrada do maior escândalo político até então. O vídeo de Marinho mostrava a lógica do loteamento: diretorias distribuídas entre partidos aliados, licitações direcionadas e propina como parte da rotina. Uma estatal que deveria entregar cartas e encomendas servia, na prática, de moeda de troca na formação da base governista.
O problema não ficou no passado. O Postalis, fundo de pensão dos funcionários dos Correios, acumulou ao longo dos anos déficits bilionários, associados a investimentos de alto risco e decisões de gestão que passaram por investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e de órgãos de controle. Quem pagou foram os trabalhadores e aposentados da empresa, que enfrentaram cobranças extras para cobrir o rombo. Em fundos de pensão de estatais, a influência política sobre as indicações para diretorias e conselhos foi apontada em diversas apurações como um dos fatores centrais dos desequilíbrios, e isso vale não apenas para o Postalis, mas também para Petros, Funcef e Previ.
Mais recentemente, já no terceiro mandato de Lula, os Correios voltaram às manchetes por razões financeiras. A empresa registrou prejuízos bilionários, perdeu mercado para operadores privados de logística e comércio eletrônico, e precisou recorrer a socorro financeiro com respaldo do Tesouro. Mesmo que a crise tenha causas estruturais, como a queda do volume de cartas e a concorrência, o problema de fundo é de gestão e de modelo: estatais tratadas como cabide de empregos e como espaço de acomodação política têm dificuldade de se reinventar.
A lição dos Correios é que o aparelhamento não gera apenas casos policiais. Gera estatais ineficientes, e a conta chega ao contribuinte, que paga duas vezes: no desvio de ontem e no resgate de hoje.
Petrobras: o maior caso de corrupção da história do país
O desenho do esquema
Se o Mensalão foi o ensaio, o Petrolão foi a peça completa. A Operação Lava Jato, iniciada em 2014 em Curitiba, revelou que um cartel de grandes empreiteiras combinava preços e dividia obras da Petrobras. Em contrapartida, pagava propina a diretores da estatal, que repassavam parte do dinheiro a partidos e políticos. As delações de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento, de Pedro Barusco, ex-gerente executivo, e de executivos da Odebrecht, da OAS, da Camargo Corrêa e de outras empresas descreveram um sistema em que um percentual dos contratos era destinado ao pagamento de agentes públicos e partidos.
As diretorias da Petrobras eram distribuídas segundo a lógica da coalizão: Abastecimento com um partido, Serviços com outro, Internacional com outro. A diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque, era associada ao PT e ao núcleo de José Dirceu, e o ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, foi apontado como destinatário de recursos. A própria Petrobras reconheceu, no balanço de 2014, uma baixa contábil de R$ 6,2 bilhões atribuída a pagamentos indevidos, e em 2018 fechou nos Estados Unidos um acordo de cerca de US$ 3 bilhões para encerrar uma ação coletiva movida por investidores que se sentiram lesados pelo escândalo. Ou seja: a empresa admitiu que foi vítima do esquema, e pagou caro por isso.
As refinarias: a obra como oportunidade
É nas refinarias que o dano se mede em concreto, cimento e bilhões.
Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Anunciada em 2005 como uma parceria entre Petrobras e a venezuelana PDVSA, com orçamento inicial na casa de US$ 2,3 bilhões, tornou-se o símbolo do descontrole. A PDVSA nunca aportou o que prometeu, o projeto foi sendo ampliado e redimensionado, e o custo final ultrapassou muitas vezes o previsto: estimativas de órgãos de controle apontam valores na casa de duas dezenas de bilhões de dólares, e a refinaria só operou parcialmente e com atraso. Foi nas obras de Abreu e Lima que a Lava Jato encontrou superfaturamento, contratos aditivados sucessivamente e pagamentos de propina em diversos consórcios.
Comperj, no Rio de Janeiro. O Complexo Petroquímico, lançado como grande motor de desenvolvimento do estado, consumiu bilhões de reais em terraplenagem, infraestrutura e obras parciais antes de ser praticamente abandonado. Foi concebido com otimismo, orçado de forma irreal e tocado sem planejamento compatível. O que sobrou foi um canteiro parado, empregos perdidos e uma região que apostou numa promessa que não se cumpriu. Mais tarde, o projeto foi reaproveitado em escala menor, com foco em gás natural, o que mostra o tamanho do desperdício inicial.
Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. A Petrobras comprou metade da refinaria em 2006 e, depois, por decisão arbitral, foi obrigada a adquirir o restante. O custo total da operação ficou muito acima do valor pelo qual a vendedora, a belga Astra Oil, havia adquirido todo o ativo no ano anterior. O Tribunal de Contas da União apontou prejuízo na casa de centenas de milhões de dólares. Dilma Rousseff, que presidia o conselho de administração da Petrobras na época, afirmou que aprovou a compra com base em um resumo executivo técnica e juridicamente falho. Seja como for, a decisão passou pelo colegiado que ela chefiava.
Premium I e II, no Maranhão e no Ceará. Duas refinarias anunciadas com pompa, que consumiram recursos em terraplenagem e projetos e foram canceladas ou paralisadas, sem jamais refinar uma gota de petróleo.
O saldo dessas obras é um retrato do modelo: projetos superdimensionados por critérios políticos, contratos inflados e uma estatal usada como motor de campanha. Em vez de reduzir a dependência de derivados importados, o país ficou com ativos caros e subutilizados.
Sete Brasil, plataformas e estaleiros
O esquema não se limitou às refinarias. A Sete Brasil, empresa criada para construir sondas de perfuração do pré-sal, tornou-se outro foco de propina, com delatores relatando pagamentos a diretores e ao partido. Estaleiros nacionais foram incentivados por política de conteúdo local e acabaram envolvidos em contratos suspeitos, atrasos e falências. A política de conteúdo local, desenhada como estratégia industrial, na prática serviu de pretexto para direcionar contratos a empresas amigas.
As consequências para o país
O efeito do Petrolão foi devastador. Empreiteiras quebraram, centenas de milhares de empregos na construção civil e na cadeia do petróleo desapareceram, e a Petrobras teve o endividamento elevado e o valor de mercado corroído. Parte do prejuízo veio do escândalo, outra parte de decisões de política econômica, como o controle dos preços dos combustíveis, que dilapidou o caixa da empresa em nome de conter a inflação.
A Lava Jato recuperou parte do dinheiro desviado, com devoluções feitas por delatores e acordos de leniência, e esses recursos, na casa de bilhões de reais, voltaram à Petrobras e ao Tesouro. Isso também faz parte do registro: nem tudo foi perdido, e boa parte do dinheiro devolvido veio de confissões feitas pelos próprios envolvidos.
Outros capítulos no Executivo
Eletrobras, Eletronuclear e Angra 3. Na área de energia, o caso mais emblemático é o das obras de Angra 3, no âmbito da Eletronuclear. O ex-presidente da empresa, Othon Luiz Pinheiro da Silva, almirante e símbolo do programa nuclear, foi condenado na Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro ligadas aos contratos. A obra, iniciada nos anos 1980, foi retomada, paralisada, retomada de novo, e consumiu bilhões sem entregar energia.
BNDES e o financiamento de obras no exterior. O banco financiou, nos governos do PT, grandes obras de empreiteiras brasileiras em países como Cuba, Angola e Venezuela. O caso do Porto de Mariel, em Cuba, tornou-se o mais conhecido. A questão central nunca foi o apoio à exportação de serviços de engenharia, política adotada por muitos países. O problema é a opacidade, a concentração em poucas empresas e a suspeita de que a relação privilegiada dessas empreiteiras com o poder influenciou a concessão dos créditos. Parte dos contratos foi inadimplida, e o prejuízo recaiu sobre o Tesouro.
Fundos de pensão. Petros, Funcef, Previ e Postalis tiveram diretorias indicadas politicamente e sofreram perdas bilionárias em investimentos questionados. A Operação Greenfield e outras apurações investigaram aplicações suspeitas, e as perdas foram absorvidas por participantes que passaram a pagar contribuições extraordinárias para cobrir os déficits. O dano foi direto: aposentadorias reduzidas, descontos nos contracheques e redução do patrimônio de trabalhadores que nada tinham a ver com a política.
Outros episódios. O caso do dossiê contra adversários, em 2006, com petistas flagrados com cerca de R$ 1,7 milhão; a saída de Erenice Guerra da Casa Civil em 2010, após denúncias de tráfico de influência envolvendo familiares; a queda de Antonio Palocci em 2011, por conta da evolução patrimonial, e sua posterior condenação e delação na Lava Jato; a Operação Zelotes, que apurou a compra de medidas provisórias e decisões no órgão de recursos fiscais, e na qual Lula chegou a ser réu, tendo sido depois absolvido em primeira instância; a Operação Acrônimo, que mirou o então governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel; e o chamado quadrilhão do PT, denúncia apresentada em 2017 pela Procuradoria-Geral da República contra dirigentes e ex-ministros do partido, acusados de organização criminosa, e que também terminou sem condenações.
A Operação Sem Desconto e o INSS. Já no terceiro mandato, a Operação Sem Desconto, de 2025, apontou descontos associativos não autorizados nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. As estimativas divulgadas pelos órgãos de controle falam em valores na casa de bilhões de reais em prejuízos ao longo de alguns anos, parte deles durante gestões anteriores, mas com a fraude persistindo e crescendo no atual governo. O caso levou à queda do presidente do INSS e à saída do ministro da Previdência, Carlos Lupi. Entidades ligadas a sindicalistas e a pessoas próximas ao círculo do poder foram citadas, e uma CPMI foi instalada. As responsabilidades políticas e criminais seguem em apuração, e é preciso cautela: citar um nome numa investigação não equivale a imputar crime. Mas o episódio mostra que a fiscalização frouxa sobre benefícios dos mais vulneráveis permaneceu, e que a vítima, de novo, foi o cidadão comum, desta vez o aposentado de baixa renda.
Legislativo: base comprada, obstrução e blindagem
No Legislativo, o Mensalão foi a prova de que a base aliada podia ser sustentada com recursos ilícitos. A condenação do presidente da Câmara, João Paulo Cunha, e do líder do PT, José Genoino, mostrou que o problema chegou ao centro do poder parlamentar. O episódio do assessor de um deputado petista flagrado com dinheiro na cueca em um aeroporto, em 2005, virou símbolo da crise.
Em 2015, o líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, foi preso em flagrante por tentar obstruir a Lava Jato, o primeiro senador preso no exercício do mandato desde a redemocratização. Gravado oferecendo ajuda para a fuga de um réu, acabou cassado e firmou delação premiada, na qual implicou Lula e Dilma, que negaram as acusações.
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, foi denunciada na Lava Jato e absolvida pela Segunda Turma do STF em 2018, o que registro por dever de honestidade.
O Legislativo também foi palco da blindagem do próprio sistema. As discussões sobre mudanças em regras de abuso de autoridade, de acordos de delação, de prisão após condenação em segunda instância e de financiamento de campanhas mostraram um Congresso mais preocupado em se proteger que em se fortalecer contra a corrupção. Essa crítica vale para a maioria dos partidos, o PT incluído.
Judiciário: a desconstrução da Lava Jato
A sequência das decisões
É no Judiciário que o debate fica mais delicado, e é também onde o cidadão tem direito a perguntas incômodas.
Em março de 2021, o ministro Edson Fachin anulou as condenações de Lula nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, e também dos processos do Instituto Lula, com o argumento de que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o foro competente. Em seguida, a Segunda Turma do STF reconheceu a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro no caso do tríplex, e o plenário confirmou a anulação em junho daquele ano. Lula voltou a ser elegível e foi eleito em 2022.
A partir de 2023, outras decisões ampliaram o desmonte. O ministro Dias Toffoli invalidou provas obtidas a partir do acordo de leniência da Odebrecht e do sistema usado por ela para registrar pagamentos, em decisões que beneficiaram investigados, e suspendeu multas bilionárias de acordos de leniência de empresas como a Odebrecht e a J&F. Outras condenações de ex-dirigentes petistas e de empresários envolvidos no Petrolão foram anuladas ou revistas com base em argumentos semelhantes. As empresas, vale lembrar, haviam confessado pagamentos ilícitos em acordos assinados com o Estado, e algumas delas já haviam devolvido dinheiro.
O problema da composição
O desconforto central é institucional. Alguns dos ministros que participaram dessas decisões, ou que integram a Corte que as ratificou, tinham relações próximas com Lula ou com o PT:
- Dias Toffoli foi advogado do PT em campanhas eleitorais, subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil quando o ministro era José Dirceu e advogado-geral da União no governo Lula, antes de ser indicado ao STF em 2009.
- Cristiano Zanin foi advogado pessoal de Lula na Lava Jato e chegou ao Supremo em 2023 por indicação do ex-cliente.
- Flávio Dino era ministro da Justiça de Lula e foi indicado ao STF em seguida.
- Ricardo Lewandowski, indicado por Lula em 2006, deixou o tribunal e voltou ao governo como ministro da Justiça.
- Cármen Lúcia também foi indicada por Lula, em 2006.
Nenhuma dessas indicações é ilegal. A Constituição dá ao presidente o poder de escolha, com aprovação do Senado. Mas legalidade e confiança pública são coisas distintas. Quando um ministro que foi advogado ou auxiliar direto de um dos envolvidos participa de julgamentos que beneficiam esse mesmo grupo, o mínimo que a sociedade pode fazer é perguntar se não seria prudente que ele se declarasse impedido ou suspeito. O sistema de freios e contrapesos funciona quando os freios são percebidos como independentes.
O que as anulações significam e o que não significam
As anulações de 2021 foram processuais: o STF entendeu que o processo correu no “foro errado” e que o juiz não foi imparcial. Isso não é uma sentença de mérito dizendo que os fatos não ocorreram. Também não é, por outro lado, prova de culpa. Lula não tem condenação vigente e goza da presunção de inocência, como qualquer cidadão. Os casos poderiam ter sido refeitos em outras varas, e boa parte deles foi arquivada ou prescreveu, o que impediu o julgamento de mérito. O resultado prático é que o país ficou sem uma resposta jurídica definitiva sobre fatos que a própria Petrobras e as empresas envolvidas reconheceram.
Por que isso importa
Há uma diferença entre reconhecer as falhas de um processo e concluir que não houve crime. Os desvios na Petrobras foram reconhecidos pela empresa, que os lançou em balanço. Foram confessados por executivos de empreiteiras, em acordos com o Estado. Resultaram em devolução de bilhões de reais. A corrupção não depende de um juiz parcial para ter existido, e a parcialidade de um juiz não faz desaparecer o dinheiro desviado.
O que mais incomoda é a ausência de uma conclusão. Em vinte anos, passamos por Mensalão, Petrolão, Postalis, BNDES, Angra 3, Zelotes, INSS, e ao final ainda não há um balanço claro de quem foi responsabilizado, quem foi absolvido e quem escapou por tecnicalidades. Uma democracia madura precisa de decisões definitivas e críveis, que sejam aceitas por todos os lados por terem sido tomadas por juízes percebidos como independentes e imparciais.
Há ainda uma lição sobre o modelo. Enquanto estatais forem tratadas como feudos de partidos, com diretorias distribuídas por critério político, o risco de novos escândalos permanece, e vale para qualquer governo, de qualquer cor. A Lei das Estatais, aprovada em 2016 para impor critérios técnicos às nomeações, foi um avanço, e as tentativas de flexibilizá-la, inclusive no atual governo, merecem atenção.
O PT não inventou a corrupção no Brasil, e nenhum partido tem o monopólio da virtude ou do vício. Mas esteve no centro de dois dos maiores escândalos da história republicana, o Mensalão e o Petrolão, e governou o país no período em que Petrobras, Correios, fundos de pensão e bancos públicos foram usados como instrumentos de poder. Em vez de uma autocrítica, o que se viu foi a transformação das condenações em narrativa de perseguição e a comemoração das anulações como se fossem absolvições.
Parte II – O legado econômico e a economia da dependência
Escândalos de corrupção ocupam as manchetes, mas a conta mais duradoura de um governo costuma estar na economia. Ela aparece no emprego que não volta, na dívida que cresce, nos juros que sufocam e na região inteira que passa a depender do Estado para viver. Esta parte trata do que os críticos do PT apontam como o legado econômico de duas décadas de poder: a recessão de 2015-2016, a deterioração fiscal recorrente, o uso das estatais como instrumento de política econômica e, o mais delicado, a dependência estrutural de programas de transferência de renda, sobretudo no Norte e no Nordeste.
É preciso separar duas coisas. Ajudar quem tem fome é dever do Estado, e nenhum argumento sério pode negá-lo. A crítica é outra: um país que, depois de vinte anos, ainda não criou para milhões de pessoas uma alternativa ao benefício terá falhado em algo essencial, por mais generosa que seja a intenção.
A recessão de Dilma: o maior colapso da série histórica
O ponto de partida é o governo Dilma Rousseff. A chamada Nova Matriz Econômica, adotada a partir de 2011, combinou desonerações tributárias generalizadas, crédito subsidiado por bancos públicos, controle de preços administrados e gastos crescentes. A aposta era que o Estado induziria o crescimento. O resultado foi o contrário.
Em 2015 e 2016, o PIB caiu cerca de 3,5% ao ano, uma retração acumulada próxima de 7%, uma das mais profundas da história do país. A inflação fechou 2015 em 10,67%, a Selic chegou a 14,25% e o número de desempregados passou de 12 milhões em 2017. A dívida bruta, que estava em torno de 52% do PIB em 2013, subiu para cerca de 70% poucos anos depois. As contas públicas, superavitárias no início da década, entraram em déficit primário na casa de R$ 100 bilhões por ano.
Parte do estrago foi causada pelo próprio governo: as pedaladas fiscais, que levaram ao impeachment, mascararam o tamanho do rombo, e o represamento de tarifas de energia e combustíveis custou caro. A Petrobras vendeu gasolina e diesel abaixo do preço internacional durante anos para segurar a inflação, o que corroeu seu caixa, elevou seu endividamento e comprometeu seus investimentos. Aqui o problema econômico e o problema da corrupção se encontram: uma estatal desviada por dentro e manipulada por fora perdeu valor de mercado em dezenas de bilhões de dólares.
A recessão não foi um acidente externo. Choques internacionais, a queda das commodities e a paralisia política da época contribuíram, mas a escolha do modelo foi do governo.
O boom das commodities e a lição não aprendida
Há uma leitura honesta que também precisa constar. Nos dois primeiros mandatos de Lula (2003-2010), o país cresceu em média perto de 4% ao ano, com inflação sob controle, reservas internacionais robustas e queda da pobreza. Lula manteve o tripé macroeconômico herdado de Fernando Henrique Cardoso, com Henrique Meirelles no Banco Central e Palocci na Fazenda, e colheu o benefício do ciclo de alta das matérias-primas.
A crítica é que esse período de abundância não foi usado para reformas estruturais. Em vez de reduzir o custo Brasil, reformar a Previdência para valer, simplificar a tributação e elevar a produtividade, o governo ampliou gastos correntes, expandiu o crédito subsidiado e apostou em campeões nacionais, empresas escolhidas com apoio generoso do BNDES. Quando o ciclo de commodities virou, o país ficou com uma estrutura de gastos engessada e uma economia pouco competitiva. Em 2010, o PIB cresceu 7,5%, e muitos na época trataram aquele número como o novo normal. Era o pico, e a descida foi dura.
O terceiro mandato: déficit, dívida e juros
Ao voltar ao Planalto em 2023, Lula herdou uma economia que havia crescido e um desemprego em queda, mas também um país com dívida alta e um sistema de gastos obrigatórios crescente. A resposta do governo foi o arcabouço fiscal, aprovado em 2023 para substituir o teto de gastos. Em tese, ele impõe metas e limita o crescimento da despesa. Na prática, os críticos apontam que as metas de resultado primário foram sucessivamente descumpridas, flexibilizadas ou atingidas com artifícios, como a exclusão de despesas do cálculo, e que o ajuste dependeu quase inteiramente do aumento de receitas, e não do corte de despesas.
Os números centrais contam a história:
- A dívida bruta voltou a rondar a casa dos 76% a 80% do PIB, patamar elevado para um país emergente.
- A despesa com juros da dívida passou perto de R$ 1 trilhão por ano, mais do que se gasta com a maioria das políticas públicas somadas.
- A Selic chegou a 15% em 2025, o nível mais alto em quase duas décadas, numa tentativa do Banco Central de controlar a inflação e as expectativas num ambiente de dúvida fiscal.
Os juros altos são o ponto de encontro de todos os problemas: encarecem o crédito para famílias e empresas, travam o investimento privado e aumentam o custo da própria dívida. A discussão sobre quem tem mais responsabilidade, o governo que gasta ou o Banco Central que sobe os juros, é antiga. Mas os economistas de várias correntes convergem num ponto: a incerteza fiscal contribui para manter o juro real alto.
O Estado que cresce e espreme o investimento
Um dado pouco debatido é a composição do gasto público. A maior parte do orçamento federal é composta por despesas obrigatórias: Previdência, pessoal, benefícios assistenciais e pisos constitucionais de saúde e educação. Sobra pouco para investimento, que ficou, na média das últimas décadas, em níveis muito baixos como proporção do PIB, insuficientes para modernizar rodovias, portos, saneamento e energia.
O governo Lula 3 voltou a vincular, na prática, o crescimento de despesas a regras de correção que elevam o gasto mesmo sem decisão política nova, como a política de valorização do salário mínimo, que reajusta benefícios previdenciários e assistenciais. Isso é defendido como política de renda, mas é também, para os críticos, uma máquina que pressiona o orçamento ano após ano, sem que haja contrapartida em produtividade.
As estatais, que deveriam ser fonte de investimento, voltaram ao centro das preocupações. Os Correios operam no vermelho, a Petrobras volta a sofrer pressão política sobre preços, e propostas de flexibilização da Lei das Estatais, de 2016, reabriram o debate sobre indicações políticas. O modelo se repete: sempre que o caixa aperta, o governo recorre às empresas públicas.
A economia da dependência: Norte e Nordeste
Os números do Bolsa Família
O Bolsa Família atende hoje cerca de 20 milhões de famílias, algo como 50 a 55 milhões de pessoas, mais de um quarto da população brasileira, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social. O Cadastro Único, porta de entrada de vários programas, reúne em torno de 40 milhões de famílias. Em 2022, o benefício mínimo foi elevado para R$ 600, valor mantido e ampliado com adicionais por criança no governo atual. O custo anual do programa gira em torno de R$ 160 a 170 bilhões, perto de 1,5% do PIB.
Esses recursos não se distribuem de forma homogênea. Estados do Nordeste e do Norte concentram uma fatia desproporcional das famílias beneficiárias. Em unidades como Maranhão, Piauí, Alagoas, Paraíba, Pará e Amazonas, a proporção da população que vive em lares atendidos pelo programa passa de um terço, e em centenas de municípios pequenos ultrapassa a metade.
Mais beneficiários do que trabalhadores
É daí que vem a comparação que mais circula no debate: em alguns estados e em muitos municípios, o número de pessoas que recebem benefícios sociais supera o número de trabalhadores com carteira assinada. A comparação é real, e é politicamente poderosa. Para que o argumento não perca credibilidade, convém explicitar três limites:
- O comparativo costuma usar apenas o emprego formal. Boa parte do trabalho no Norte e no Nordeste é informal, por conta própria ou agrícola, e não aparece nas estatísticas de carteira assinada. Muita gente recebe o benefício e trabalha ao mesmo tempo.
- O número de beneficiários inclui crianças e idosos. O Bolsa Família conta todas as pessoas da família, e boa parte delas não está em idade de trabalhar.
- Se somarmos Bolsa Família, BPC, aposentadorias rurais e outros benefícios previdenciários, a dependência de transferências públicas em municípios pequenos é ainda maior, e esse é o dado que melhor sustenta a tese.
Com essas ressalvas, a conclusão que um artigo de opinião pode defender é que, em vastas áreas do país, a principal fonte de renda circulante é o dinheiro público: benefícios, salários de prefeituras e aposentadorias. A economia privada, que gera emprego e arrecadação, é pequena demais para sustentar a população local.
O problema da porta de saída
O desenho original do Bolsa Família, em 2003, previa condicionalidades (frequência escolar, vacinação) e a ideia de que o benefício seria uma ponte, e não um destino. O argumento crítico é que, vinte anos depois, a ponte não leva a lugar nenhum para uma parte significativa das famílias. Faltam três coisas:
- Qualificação e educação de qualidade, que determinam a renda futura. Os indicadores de aprendizado do Nordeste e do Norte seguem entre os piores do país.
- Geração de empregos formais, que depende de segurança jurídica, infraestrutura, crédito e ambiente de negócios, áreas em que a atuação federal foi insuficiente.
- Incentivos corretos na saída do programa. Estudos e relatos apontam o receio de perder o benefício ao aceitar um emprego formal, o que desestimula a formalização. O governo criou regras de proteção, que permitem manter parte do benefício por um período, mas a eficácia dessas regras ainda é questionada.
Há também a dimensão política. Um eleitorado muito dependente de transferências tende a ter incentivo racional para votar em quem promete preservá-las ou ampliá-las, e qualquer proposta de reforma passa a ser apresentada como ameaça. O PT soube extrair dividendos eleitorais disso: nas últimas eleições presidenciais, o desempenho do partido foi expressivo no Nordeste, onde o programa tem maior presença. Os críticos veem aí um ciclo em que a dependência alimenta o voto e o voto sustenta a dependência. É uma interpretação dura, e também contestada.
A fraude e o desperdício
Um problema adjacente é a qualidade do gasto. Auditorias da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União apontaram, em diferentes períodos, benefícios pagos de forma indevida, famílias que deixaram de cumprir critérios de renda e cadastros desatualizados. O governo vem realizando pentes-finos, e cortes por irregularidade são frequentes. A existência de fraudes não invalida o programa, mas exige fiscalização constante, e a Operação Sem Desconto, no INSS, mostrou o custo de uma fiscalização frouxa sobre benefícios dos mais vulneráveis.
O que o PT deixa
Ao somar os capítulos, o quadro que os críticos desenham é este:
- Uma economia que alterna euforia e colapso, com crescimentos puxados por commodities e crédito, e recessões profundas quando o ciclo vira.
- Um Estado que gasta mais do que arrecada, com dívida e juros altos que drenam recursos de áreas essenciais.
- Estatais usadas como instrumento político, com prejuízos de gestão e de preços administrados.
- Uma estrutura social em que milhões de brasileiros dependem de transferências, sem que o país tenha construído, ao longo de duas décadas, a ponte para o emprego formal e a renda própria.
O ponto não é negar o mérito de ter tirado milhões da miséria, o que os números de pobreza extrema confirmam, em especial nos anos 2000. O ponto é que um modelo que depende cada vez mais do gasto público para se sustentar tem prazo de validade, e quem pagará a conta de um eventual ajuste serão justamente os mais pobres, que mais dependem do Estado.
O dinheiro desviado da Petrobras, dos fundos de pensão e dos Correios poderia ter financiado investimento, e o dinheiro gasto sem foco em produtividade poderia ter criado empregos. Um país que quer vencer a pobreza precisa de mais do que transferências: precisa de escola que funcione, de empresas que contratem e de um Estado que caiba no orçamento.
Parte III – As companhias que o partido escolhe: Foro de São Paulo, favelas, Hamas e MST
O que se pode fazer, e o que o eleitor tem o direito de fazer, é olhar para as escolhas políticas, os símbolos e as omissões do partido e do governo e perguntar se elas têm sido prudentes. Em temas como segurança pública, política externa e conflitos agrários, a prudência é o mínimo que se espera de quem governa.
O Foro de São Paulo
O Foro de São Paulo foi criado em 1990, por iniciativa de Lula e de Fidel Castro, para reunir partidos e organizações de esquerda da América Latina e do Caribe depois da queda do Muro de Berlim. Isso é história documentada, e o próprio PT nunca a escondeu.
A parte controversa é que o Foro admitiu em seus encontros organizações armadas, entre elas as FARC colombianas, grupo envolvido com sequestros e com o narcotráfico, e jamais fez uma autocrítica pública convincente sobre essa convivência. Também reuniu governos e partidos de regimes que depois se mostraram autoritários, como Venezuela e Nicarágua, hoje defendidos ou tratados com leniência por parte da esquerda brasileira.
Por outro lado, a versão popular do Foro como central secreta que comandaria a política do continente, o narcotráfico e a corrupção não tem base documental. Os encontros e as resoluções são públicos. A crítica sólida é política e moral: o PT escolheu conviver, por décadas, com grupos que a democracia brasileira jamais aceitaria, e nunca explicou por quê. Isso já é suficiente, e não precisa de teoria da conspiração.
As favelas: visitas, símbolos e a segurança pública
Lula no Complexo do Alemão
Lula esteve no Complexo do Alemão, no Rio, em 12 de outubro de 2022, em um comício em plena campanha eleitoral. A caminhada ficou marcada por um detalhe de comunicação: o petista fez campanha no local usando um boné com a sigla CPX, que chegou a ser associada ao crime organizado. Posteriormente, a Justiça Eleitoral mandou remover publicações que ligavam o boné a facções.
Flávio Dino na Maré
Em 13 de março de 2023, o então ministro da Justiça, Flávio Dino, esteve na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré. A visita foi feita a convite da ONG Redes da Maré, para o lançamento de um boletim sobre segurança pública, e contou com apoio da Polícia Federal, Civil e Militar. Parlamentares da oposição, porém, insinuaram ligação do ministro com o crime organizado, porque a visita não mobilizou um aparato policial ostensivo. O Comprova, checador de fatos, concluiu que era enganoso o post que afirmava que ele havia ido se reunir com líderes de facção. A própria ONG argumenta que a ida de um ministro a uma favela só incomodou porque a ausência do Estado nesses territórios foi naturalizada.
A política de segurança como o verdadeiro alvo da crítica
O flanco mais sólido do governo não está nas visitas, mas no desenho da política. A oposição critica a resistência do governo a classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e a demora em uma resposta federal robusta ao avanço territorial das facções. Um relatório da CPI do Crime Organizado no Senado estimou que ao menos 26% do território nacional estaria sob algum tipo de controle do crime organizado e 28,5 milhões de brasileiros viveriam em áreas com presença dos criminosos. O relatório, contudo, foi rejeitado por seis votos a quatro, e a CPI encerrou sem documento final. O governo responde que sua política prioriza inteligência e asfixia financeira. O debate é real, e a Parte V deste artigo volta a ele.
O Hamas e a política externa
O ponto mais factual é a posição do governo sobre o Hamas. Depois do ataque de 7 de outubro de 2023, Lula afirmou que o Brasil só reconhece como organização terrorista o que o Conselho de Segurança da ONU reconhece, e que o Hamas não consta dessa lista. Ao mesmo tempo, disse que os atos do Hamas foram terroristas. O Itamaraty reforçou que essa é a regra tradicional da diplomacia brasileira, que segue a classificação da ONU.
Os críticos veem nisso uma recusa em chamar as coisas pelo nome. EUA, União Europeia, Canadá e Japão classificam o Hamas como terrorista, enquanto Brasil, Rússia e China não. Soma-se a isso a fala de Lula comparando a ofensiva em Gaza ao Holocausto, que levou Israel a declará-lo persona non grata em 2024. Mais recentemente, um representante político do Hamas no Irã elogiou o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, o que a oposição explorou.
O contraponto é forte: o governo condena os atos do Hamas, pede a libertação de reféns e defende dois Estados. Noruega e Suíça, por exemplo, têm postura semelhante. O elogio de um dirigente do grupo a um discurso não é prova de aliança, e líderes de todo o mundo recebem aplausos que não escolheram. A crítica legítima é de prudência e coerência: um país que quer ser mediador não deveria fornecer munição retórica a nenhum dos lados.
O MST: invasões, dinheiro público e a CPI
O MST é um “movimento social“, mas na MINHA OPINIÃO é um grupo terrorista, por mais que a esquerda defenda o contrário, com décadas de atuação e relações antigas com o PT. Ele não é classificado como organização terrorista por nenhuma lei brasileira AINDA, mas com o próximo governo trabalharemos para coprrigir este erro que rejudica nossos produtores rurais.
A crítica política, porém, tem fundamento. A CPI do MST, instalada na Câmara em 2023, encerrou os trabalhos sem votar o relatório de Ricardo Salles, que propunha enquadrar como terrorismo atos violentos contra propriedades. O presidente da CPI acusou o governo de trocar integrantes da oposição por parlamentares menos resistentes ao movimento, o que o governo nega. Para os críticos, o episódio mostra o PT blindando um aliado político. Para os defensores, mostra que a proposta de equiparar ocupação de terra a terrorismo foi rejeitada, e a esquerda alerta que esse vocabulário, uma vez instalado na lei, pode alcançar movimentos sociais e sindicais.
O que o eleitor pode cobrar é concreto. Quanto de dinheiro público chega ao movimento e a entidades ligadas a ele por convênios? Como são prestadas contas? Que resposta o governo dá a invasões que envolvem violência ou destruição de lavouras produtivas? São perguntas de transparência, e podem ser feitas sem acusar ninguém de terrorismo.
Parte IV – O Estado como arma: tribunais, fiscais, ciência e soberania
Há uma pergunta que atravessa os temas desta parte: quem o Estado brasileiro protege e quem ele pune? A pergunta vale para a Justiça Eleitoral, que decide o que o eleitor pode ouvir. Vale para os fiscais ambientais, que decidem quem pode plantar. E vale para a política indígena e ambiental, que decide quem manda no território. A tese é que, em cada uma dessas áreas, o aparato estatal tem pesado mais sobre o produtor, o crítico e o contribuinte do que sobre o poder, e que o resultado combina com interesses externos que raramente são nomeados.
A Justiça Eleitoral e o direito de criticar
A três dias do primeiro turno de 2026, o que mais preocupa não é um tribunal específico, mas o modelo. A Justiça Eleitoral ganhou poder de decidir, por decisão individual e em prazos de horas, o que pode permanecer no ar.
Em 2022, sob a presidência de Alexandre de Moraes, o TSE determinou a remoção de 135 postagens sobre as urnas eletrônicas, e parlamentares de oposição sofreram penalidades que foram da remoção de conteúdo à cassação por críticas ao sistema de votação. O STF, em 2023, julgou improcedente a ação contra a resolução que dá ao TSE esse poder, entendendo que ela não configura censura prévia. A Corte validou, portanto, o modelo.
Em 2026, o fenômeno continua e ficou mais difícil de reduzir a uma disputa entre campos. O atual presidente do TSE, Nunes Marques, publicou sete decisões sobre conteúdo da disputa, determinando a retirada de seis postagens que associavam o símbolo do PT ao nazismo e acusavam o partido de apoiar o crime organizado, além de um vídeo do deputado Filipe Barros sobre o governo Lula. Mas o mesmo ministro mandou remover um vídeo de Lindbergh Farias feito com inteligência artificial sobre o 8 de janeiro, a pedido do PL. E o tribunal acaba de manter a remoção de posts que associam Flávio Bolsonaro a Nossa Senhora, com divergência entre os ministros sobre o alcance da medida.
Isso reforça o argumento, em vez de enfraquecê-lo. Quando um juiz, seja ele indicado por quem for, pode escolher qual crítica política é ataque à honra e qual é debate legítimo, o eleitor deixa de decidir sozinho. A pressão pela remoção favorece sempre quem está no poder ou quem tem mais advogados. Soma-se a isso a máquina do próprio governo: o PL levou ao TSE questionamentos sobre os gastos de publicidade institucional do governo federal, apontando possível descumprimento do limite permitido no primeiro semestre do ano eleitoral. Publicidade paga com dinheiro público, em ano de eleição, é uma vantagem que nenhum adversário consegue igualar.
Ibama e ICMBio: a sanção antes da defesa
Nenhum produtor sério defende o desmatamento ilegal. O que se critica é o método. Desde 2023 o Ibama ampliou o chamado embargo remoto: a área é embargada com base em imagens de satélite, sem vistoria e, em muitos casos, com notificação por edital. A ferramenta foi adotada em 2016, mas foi estruturada de fato a partir de abril de 2023 e ganhou volume no ano passado.
As consequências para quem planta são imediatas. Um embargo ativo na lista pública do Ibama bloqueia o financiamento rural em todo o sistema financeiro, e o crédito passou a depender da regularidade ambiental do imóvel a partir de 2026. A CNA foi ao STF por causa disso: segundo a entidade, houve embargos coletivos, por edital, a mais de 4.200 propriedades no Acre, Pará, Rondônia, Amazonas e Mato Grosso, atingindo imóveis inteiros sem separar a área do suposto ilícito da área produtiva, e bloqueando o crédito rural de milhares de produtores.
Um caso concreto dá a medida do problema. A Justiça Federal examinou o embargo da Fazenda Castanheira, no Amazonas, em que o Ibama lavrou o termo exclusivamente com base em sensoriamento remoto, sem vistoria presencial, e notificou o produtor apenas por edital. Em outro caso, no Pará, a propriedade estava regularmente inscrita no Cadastro Ambiental Rural, ou seja, perfeitamente localizável, e mesmo assim foi autuada apenas por satélite.
Foi essa a razão que levou o Congresso a reagir: a Câmara aprovou em 20 de maio de 2026 o PL 2.564/2025, que mantém o uso do sensoriamento remoto, mas veda o embargo baseado exclusivamente nele, sem que o produtor saiba que está sendo investigado. O Ibama alerta que a mudança pode atrapalhar suas ações, e é um argumento que merece resposta. Mas sanção exige contraditório, e um Estado que embarga primeiro e escuta depois trata o produtor como culpado até prova em contrário. Mesmo o Judiciário tem corrigido excessos: o TRF1 decidiu, em junho, que se a pretensão punitiva do auto de infração prescreve, o embargo, como medida acessória, também se extingue, o que derruba a tese de que o embargo seria eterno.
A Embrapa: a mais valiosa ferramenta do agro, tratada como despesa
A soja do Cerrado, a pecuária tropical e a segunda safra existem porque a Embrapa ensinou o Brasil a produzir onde ninguém acreditava ser possível. É, provavelmente, o melhor investimento público feito no país nas últimas décadas.
Os números mostram uma história mais complicada do que a de abandono, e é preciso reconhecê-lo. O orçamento discricionário de pesquisa foi recomposto a partir de 2023 e chega a R$ 410 milhões em 2026, contra R$ 335 milhões em 2023. Mas há um detalhe revelador: a proposta original do Executivo previa R$ 497,8 milhões para o programa de pesquisa e inovação, e foi o Congresso que elevou o valor a R$ 602,5 milhões, alta de 26,7%. A recomposição, portanto, veio do Legislativo mais do que do Planalto.
O problema de fundo é estrutural e vem de longe. Em 2018, por exemplo, cerca de 85% do orçamento de R$ 3,5 bilhões era consumido por salários e benefícios, e a pesquisa respondia por apenas 2% dos gastos. Uma instituição cujo orçamento total passa de R$ 4,8 bilhões e onde a pesquisa recebe uma fração tão pequena tem dificuldade de manter a vantagem tecnológica que construiu. Ao mesmo tempo, o orçamento federal de 2026 impôs novos cortes à ciência: reduções de R$ 359,3 milhões na Capes e de R$ 92,4 milhões no CNPq em relação à proposta original, que formam o ecossistema de onde saem os pesquisadores da própria Embrapa. A contradição é clara: um governo que fala em bioeconomia e sustentabilidade, mas não prioriza a pesquisa que viabiliza produzir mais em menos terra.
Terras indígenas, ONGs e o interesse europeu
A política territorial e ambiental brasileira tem favorecido, na prática, interesses estrangeiros, em especial o de organizações financiadas por governos europeus, e que isso converge com a vantagem comercial dos produtores do continente.
Vamos aos fatos. O ritmo de demarcações não explodiu: o governo Lula homologou 20 terras indígenas entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, média de 7,5 por ano, a menor entre seus mandatos, e 57 terras na Amazônia Legal ainda aguardam demarcação. O que mudou foi o ambiente jurídico. O STF, em dezembro de 2025, reafirmou pela segunda vez a inconstitucionalidade do marco temporal, mesmo depois de o Congresso ter incorporado a tese à legislação, e fixou prazo de 180 dias para os Poderes cumprirem as determinações, vigentes até que o Congresso aprove lei. Em outras palavras, uma decisão judicial substituiu a vontade do Legislativo num tema que afeta milhões de hectares e a segurança jurídica de milhares de proprietários.
Em torno desse território circula dinheiro. O Fundo Amazônia, criado em 2008 e gerido pelo BNDES, tem hoje nove doadores, entre eles Alemanha, Noruega, Reino Unido, Dinamarca, Estados Unidos, Japão, Irlanda, Suíça e, desde novembro de 2025, a União Europeia, com 20 milhões de euros. A Noruega sozinha respondia por 89,9% dos recursos recebidos até o início de 2024. O Fundo diz ter apoiado 144 projetos e mais de 600 organizações comunitárias. Há transparência formal, mas o debate de fundo permanece: quando o dinheiro é estrangeiro e a prioridade é ordenamento territorial, quem define o que é preservar e quem se beneficia de que o território fique intocado?
A resposta mais direta está no mercado. O Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) barra a importação de produtos ligados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020, independentemente de ele ser legal no país de origem, e começará a valer para grandes operadores em 30 de dezembro de 2026, com o Brasil classificado na categoria de risco padrão. O Código Florestal brasileiro autoriza uso legal de parte da propriedade, mas a Europa decidiu não reconhecer essa lei. Um bloco que subsidia o próprio agricultor impõe ao concorrente tropical uma regra que ele mesmo não cumpre, e ganha com isso.
A hipótese, portanto, é esta: não é preciso supor conspiração. Basta observar que ONGs financiadas pela Europa, a regulação europeia e a restrição de produção no Brasil apontam todas para o mesmo lado, e que o governo brasileiro raramente reage com a firmeza de quem defende o interesse nacional.
O padrão
Nos quatro temas, o padrão é o mesmo: o Estado age com rigor sobre quem produz, fala e investe, e com frouxidão ou parceria sobre quem decide de fora ou de cima. O eleitor que se importa com a liberdade de crítica, com a segurança do produtor, com a ciência que alimenta o país e com a soberania sobre o território tem motivos para perguntar em quem vai votar.
Parte V – Um país desarmado, dependente e isolado
Um país se defende, negocia e escolhe aliados a partir de três coisas: da força que tem, da independência que preserva e da coragem de enfrentar o que o ameaça por dentro. Esta parte sustenta que, nas três frentes, o Brasil chega a 2026 em posição mais frágil do que a de seus vizinhos: Forças Armadas subfinanciadas, uma dependência crescente da China e uma recusa em tratar o narcotráfico como o problema de segurança continental que ele é. O resultado é um país que a região começa a tratar como exceção.
Forças Armadas: grandes no papel, curtas na prática
O número que resume o problema é simples: o Brasil gasta cerca de 1% do PIB em defesa, contra uma média mundial de 2,4% e vizinhos como Colômbia (3,4%) e Chile (1,6%). Em 2009, o país destinava aproximadamente 1,54% do PIB aos gastos militares.
O orçamento é nominalmente alto, R$ 142 bilhões em 2026, o quinto maior da Esplanada. Mas a maior parte é absorvida por salários, pensões e custeio: em 2025, dos R$ 142,5 bilhões aprovados, apenas R$ 15,2 bilhões estavam disponíveis para investimentos. Na última década, o orçamento total da Defesa encolheu 15%, e os gastos com equipamentos, infraestrutura e pesquisa caíram pela metade, de R$ 20,6 bilhões para R$ 10,9 bilhões. É o contrário do que um país com a maior floresta tropical do planeta, mais de 16 mil quilômetros de fronteira e o Atlântico Sul, onde está o pré-sal, deveria fazer.
O encolhimento atravessa governos de todas as cores. Mas o partido governou o país por mais de 13 anos nesse período e voltou ao poder sem tratar o tema como prioridade. Um detalhe é revelador: a lei sancionada em 2025, que reserva R$ 30 bilhões, ou R$ 5 bilhões por ano a partir de 2026, para projetos estratégicos de defesa fora do limite do arcabouço fiscal, nasceu de um projeto do senador Carlos Portinho, do PL, da oposição. O ministro da Defesa ainda articula uma PEC para fixar piso de 2% do PIB, o que mostra que o piso hoje não existe. Sem investimento, o Sisfron (monitoramento de fronteiras), os submarinos e a renovação dos caças avançam em ritmo lento, e a vigilância do território continua parcial.
Uma força armada sem recursos não é apenas uma questão militar. É o que impede o Estado de controlar fronteiras, rios e pistas clandestinas por onde passam droga e armas.
A China: parceira indispensável, dependência crescente
A China é o principal parceiro comercial do Brasil. A crítica é ao método e ao ritmo. Em visita de Xi Jinping a Brasília, em 2024, Lula assinou 37 acordos e fechou um protocolo de sinergias com a Nova Rota da Seda, mas sem aderir formalmente à iniciativa. A fórmula foi apresentada como habilidade diplomática: aproveitar recursos, comércio e infraestrutura sem melindrar os Estados Unidos.
Na prática, a integração acontece. A China saltou da 14ª para a 5ª posição entre os maiores investidores diretos no Brasil em dez anos, com estoque superior a US$ 54 bilhões, e bancos como o China Development Bank e o Banco do BRICS já financiam grandes projetos. Ao contrário de vizinhos como Argentina, Chile e Peru, o Brasil não assinou formalmente a Rota da Seda, e o governo tem razão em lembrar isso. Mas a ambiguidade tem preço: quando o Brasil se declara equidistante, Washington lê o gesto como alinhamento, e a China cobra como aliado.
O ponto crítico é a concentração. Um país que depende de um único comprador para o essencial das exportações de soja, minério e carne, e de um único financiador para obras estratégicas, perde margem de negociação. E a política externa petista, com o BRICS no centro, aposta em um mundo multipolar em que o Brasil escolhe um lado sem dizê-lo. É uma aposta, não uma estratégia de defesa.
O patinho feio: a recusa em enfrentar o narcotráfico
Foi nesta frente que o isolamento ficou visível. Em 28 de outubro de 2025, uma operação policial no Rio deixou 121 mortos. Em questão de horas, Argentina e Paraguai passaram a classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, e ambos reforçaram suas fronteiras com o Brasil. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado dos EUA fez o mesmo, o que a imprensa descreveu como a maior derrota do governo Lula na relação com Trump desde o tarifaço de 2025, e um integrante do governo reconheceu à BBC que a decisão foi fruto da ação de aliados da oposição brasileira em Washington.
Em 22 de setembro de 2026, durante a Assembleia-Geral da ONU, uma declaração conjunta de 14 países da América Latina e do Caribe aderiu à classificação americana. Assinaram Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru, entre os sul-americanos, além de outros países da América Central e do Caribe, no âmbito do chamado Escudo das Américas. A diplomacia brasileira foi pega de surpresa. O Brasil não classifica o PCC e o CV como terroristas, sob o argumento de que as facções buscam lucro, e não objetivos políticos.
A sombra de Caracas: o que se sabe e o que se especula
Em 3 de janeiro de 2026, Nicolás Maduro foi capturado em Caracas por uma operação militar dos Estados Unidos e levado a Nova York. Desde então, passou por uma audiência em que se declarou inocente das acusações do Departamento de Justiça americano, que incluem narcotráfico.
A oposição brasileira reagiu na hora. O senador Flávio Bolsonaro sugeriu que a captura abria uma caixa de Pandora e que uma eventual colaboração premiada poderia envolver o governo Lula. É preciso ser exato: até hoje, não há qualquer delação de Maduro. Os vídeos que circularam atribuindo a ele acusações contra Lula e ministros do STF foram desmentidos por agências de checagem e eram conteúdo produzido por inteligência artificial. A delação de Hugo Carvajal, ex-general venezuelano preso nos EUA, é anterior à captura de Maduro e não citou Lula nem o PT.
O que existe de concreto é político, e é suficiente para justificar perguntas. Lula recebeu Maduro no Itamaraty em 2023 e disse que ele não era um homem mau. Defendeu por anos uma abordagem benevolente com o regime chavista, mesmo diante de eleições contestadas, e, ao saber da captura, afirmou que a operação americana ultrapassou uma linha aceitável, sem citar Maduro nominalmente. Quem acumulou essa proximidade tem o dever de explicar o que sabia sobre o regime e sobre os negócios que o sustentavam. Se algum dia surgirem acusações formais, caberá à Justiça avaliá-las. Até lá, o que o eleitor pode cobrar são esclarecimentos, e não sentenças.
O isolamento
Um país que gasta 1% do PIB em defesa, depende de um parceiro para o essencial de seu comércio e recusa o consenso de seus vizinhos sobre o crime organizado não está sendo neutro, está sozinho. A imagem do patinho feio resume o que a região vê: um gigante que não coordena, não arma e não se alinha. Quem paga a conta é o brasileiro que vive em área dominada por facção, o produtor que depende de fronteira segura e o contribuinte que financia um Estado que gasta muito e protege pouco.
Parte VI – Os irmãos Batista e o PT: o campeão nacional e a conta do contribuinte
Poucas relações entre um grupo empresarial e um partido no poder foram tão estreitas, tão lucrativas e tão mal explicadas quanto a dos irmãos Joesley e Wesley Batista com os governos do PT. Nos anos Lula e Dilma, um frigorífico de Goiás tornou-se a maior processadora de proteína animal do planeta e a J&F, sua holding, ergueu um conglomerado que hoje vai de carnes a celulose, bancos, higiene e energia. No caminho, o grupo foi sócio do BNDES, devedor de fundos de pensão de estatais, delator de um esquema de propinas a políticos de vários partidos, signatário de acordos de leniência no Brasil e de um acordo com autoridades americanas e, a partir de 2023, comprador de ativos estratégicos em negócios que voltaram a depender de decisões do governo federal.
De uma casa de carnes em Anápolis ao maior conglomerado do país
A história começa em 1953, com a Casa de Carnes Mineira, em Anápolis (GO), aberta por José Batista Sobrinho. A marca Friboi surgiu na virada dos anos 1960 para os 1970, com a compra dos primeiros frigoríficos em Formosa (GO). Durante décadas, o negócio foi um grupo regional de porte médio. O salto veio na década de 2000, e coincide com o primeiro governo Lula e com a política de seleção de campeões nacionais conduzida pelo BNDES.
Em 2007, a JBS abriu o capital na bolsa e comprou a Swift, nos Estados Unidos e na Austrália. Em setembro de 2009, anunciou no mesmo dia a compra da americana Pilgrim’s Pride e a incorporação do Grupo Bertin, que era o seu principal concorrente no Brasil. Em 2013, comprou a Seara, da Marfrig. Segundo reportagem de 2017 da revista Fusões & Aquisições, os Batista gastaram mais de R$ 30 bilhões em aquisições ao longo de dez anos.
O mapa das empresas criadas e ampliadas no período
A tabela abaixo reúne os principais ativos que o grupo comprou, fundou ou ampliou entre 2007 e 2015, com a observação de como cada movimento se relaciona com o financiamento público, quando há registro.
| Ano | Empresa ou ativo | Observação |
|---|---|---|
| 2007 | JBS (abertura de capital) e Swift | Abertura de capital e compra da Swift nos EUA e na Austrália, com aporte do BNDES via BNDESPar. |
| 2009 | Bertin, Vigor e Pilgrim’s Pride | Incorporação do Bertin, que trouxe a Vigor (laticínios) e marcas de higiene, e compra da Pilgrim’s Pride nos EUA, anunciadas no mesmo dia. |
| 2011 | Banco Matone (hoje Banco Original) | Compra financiada em parte por empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos, segundo a imprensa econômica; fundido ao Banco JBS. |
| 2011 | Flora (higiene e limpeza) | Ampliada com marcas do Grupo Bertin e da Hypermarcas, como Ox, Neutrox e Francis. |
| 2012 | Eldorado Brasil Celulose | Criada em sociedade com os fundos de pensão Petros e Funcef; emitiu debêntures subscritas pelo FI-FGTS e pela Caixa. |
| 2013 | Seara e Canal Rural | Seara comprada da Marfrig; Canal Rural comprado do grupo RBS. A Vigor, já do grupo, adquiriu 50% da Itambé. |
| 2015 | Alpargatas (Havaianas) | Compra com crédito da Caixa, que chegou a ser examinado pelo TCU em 2016. O grupo vendeu a participação em 2017. |
| 2015 | Âmbar Energia e Usina Termelétrica de Cuiabá (MT) | Térmica construída pela Enron, que operava com dificuldade por falta de gás. É a origem do braço de energia do grupo. |
O quadro revela uma estratégia coerente de diversificação, bancada por crédito, por sócios institucionais e, em vários casos, por recursos de origem pública. Parte desses ativos foi vendida depois da crise de 2017, como Vigor, Alpargatas e a fatia de 49% da Eldorado, vendida à Paper Excellence, o que gerou uma das maiores disputas empresariais da década e só terminou em 2025, quando a J&F recuperou o controle total da empresa por mais de R$ 15 bilhões.
O BNDES como sócio
Nos governos de Lula e Dilma, a carteira de empréstimos do BNDES cresceu a ponto de superar a do Banco Mundial, e boa parte desse crédito sustentou a política dos chamados campeões nacionais, da qual a JBS foi o caso mais emblemático. Segundo levantamento publicado pelo Observatório da Mineração, o grupo J&F recebeu do banco R$ 17,6 bilhões em desembolsos entre 2003 e 2017. A denúncia do Ministério Público Federal sobre as operações com a JBS fala em aportes do BNDESPar, o braço de participações do banco, superiores a R$ 8,1 bilhões entre junho de 2007 e dezembro de 2009.
O episódio mais citado pelos críticos é o do Bertin. O Grupo Bertin, que o BNDES apoiara com cerca de R$ 2,5 bilhões em investimentos, enfrentava dificuldades financeiras quando foi absorvido pela JBS, que assumiu uma dívida da ordem de R$ 4 bilhões. Analistas da época interpretaram a operação como uma forma de o banco preservar o dinheiro já aplicado em troca do apoio à compra da Pilgrim’s Pride. O BNDES sustentou que a incorporação preservou o seu investimento. Em outras palavras, o contribuinte já era sócio de uma empresa em dificuldade e participou da solução que a absorveu por uma rival maior, também financiada por ele.
Também a Swift foi objeto de questionamento. Em 2017, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União apontou possíveis irregularidades de oito ex-diretores do banco, entre eles o então presidente Luciano Coutinho, na aprovação de um aporte de US$ 750 milhões para a compra da empresa americana, e afirmou que a operação deixou a JBS com um caixa de pelo menos US$ 235 milhões que não era comprovadamente necessário.
O que a delação disse
Em maio de 2017, os irmãos Batista e executivos da J&F fecharam acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Joesley relatou pagamentos a políticos de diferentes partidos, entre eles o então presidente Michel Temer, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o ex-ministro José Serra. Segundo o seu relato, desde 2009 ele passou a tratar diretamente com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, que lhe apresentava listas de políticos e partidos a serem contemplados com doações, e que as propinas eram combinadas caso a caso. Disse ainda ter pago R$ 30 milhões ao ex-ministro Antonio Palocci, a pretexto de ajudar a campanha de Dilma Rousseff em 2010, e ter tratado em reunião no Planalto, em novembro de 2014, de um novo pedido de contribuição. A J&F também afirmou, em sua colaboração, que pagou para obter aportes e financiamentos do BNDES.
Dois registros de honestidade são necessários. O primeiro é que a delação não poupou ninguém: atingiu o PT, mas também o PMDB e o PSDB, e o acordo foi abalado por suspeitas envolvendo o ex-procurador Marcelo Miller, que teria ajudado a preparar a colaboração, o que levou à perda da imunidade de Joesley, preso em setembro de 2017. O segundo é que as palavras de um delator, por si sós, não bastam para condenar ninguém.
O que a Justiça e o TCU decidiram
Em maio de 2019, a Justiça Federal em Brasília aceitou a denúncia contra Guido Mantega e Luciano Coutinho, em inquérito que apurava a concessão de empréstimos considerados fraudulentos, de mais de R$ 8 bilhões, à JBS. No mesmo despacho, o juiz rejeitou a denúncia contra Joesley, que tinha acordo de colaboração, e contra Palocci, a quem se atribuía o recebimento de R$ 2,1 milhões para interferir em decisões do BNDES. O processo terminou com a absolvição de Mantega e de Coutinho. Na sentença, o juiz entendeu que as acusações se apoiavam em declarações genéricas do delator, sem prova que as sustentasse.
No Tribunal de Contas da União, o desfecho foi igualmente favorável ao banco. Em abril de 2025, o plenário julgou três processos sobre operações do BNDES com a JBS entre 2005 e 2014, relativas à compra da Swift, da Bertin e de ações da Pilgrim’s, e decidiu, por maioria, que não houve dano nem ato irregular. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que as operações renderam lucro de R$ 16,5 bilhões ao banco.
O quadro, portanto, é este. A hipótese de que o financiamento da JBS foi comprado com propina não prosperou na Justiça, e o TCU concluiu que o banco não teve prejuízo. Isso é um fato, e quem escreve sobre o assunto tem o dever de registrá-lo. Mas o grupo que recebeu esse dinheiro confessou, em acordos com o Estado, ter pago propinas a políticos, assinou um acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões e se declarou culpado de acusações nos Estados Unidos, em 2020. As multas desse acordo de leniência foram objeto de suspensão por decisão do ministro Dias Toffoli, como já mencionado na Parte I.
| Tema | Situação |
|---|---|
| Operações do BNDES com a JBS (Swift, Bertin, Pilgrim’s) | TCU, abril de 2025: sem dano e sem ato irregular, por maioria. |
| Ação penal contra Mantega e Coutinho | Absolvidos pela Justiça Federal em Brasília. |
| Denúncia contra Palocci (R$ 2,1 milhões) | Rejeitada pelo juiz em 2019. |
| Delação de Joesley e Wesley Batista | Acordo firmado em 2017; imunidade de Joesley revogada naquele ano; leniência de R$ 10,3 bilhões, com multas suspensas por decisão do STF. |
| Declarações sobre pagamentos a políticos do PT | Relato do delator, sem condenação de agentes públicos até o momento. |
A CPMI da JBS e a aliança improvável
Em 2017, o Congresso instalou uma comissão parlamentar mista de inquérito para investigar irregularidades do grupo J&F nas operações com o BNDES. O senador Randolfe Rodrigues criticou o fato de a comissão reunir, do mesmo lado, o relator Carlos Marun, do PMDB de Temer, e o PT, e sustentou que o objetivo não era investigar a JBS, mas retaliar o Ministério Público Federal. É uma leitura de parlamentar, e não um fato comprovado, mas ilustra o ponto central deste capítulo: a relação entre o poder político e esse grupo empresarial atravessou partidos e governos, e os interesses de quem era acusado e de quem investigava se misturaram mais de uma vez.
Do campeão nacional à geradora de energia: o terceiro mandato
Depois da crise de 2017, a J&F vendeu ativos, pagou a leniência e, a partir de 2019, voltou a comprar. Entre junho de 2024 e meados de 2026, a Âmbar Energia saltou de 27 para quase 50 usinas, conforme reportagem do portal InvestNews. Vários desses negócios dependiam, de formas diferentes, de decisões do governo federal.
Cuiabá. A usina termelétrica de Cuiabá (MT) foi construída pela Enron, ficou anos parada por falta de gás e foi comprada pelos Batista em 2015, em condições que a imprensa descreveu como as de um ativo problemático. Ela ganhou notoriedade em 2017, quando uma gravação entregue pela J&F levou à investigação do então presidente Temer, em torno do acesso da usina ao gás boliviano, e à entrega de uma mala com R$ 500 mil ao ex-deputado Rodrigo Rocha Loures. Temer negou as acusações. Meses depois, a usina foi cogitada para um acordo que, segundo o colunista Lauro Jardim, poderia render ao grupo cerca de R$ 10 bilhões em sete anos.
Amazonas Energia. A distribuidora do Amazonas acumulava dívida de cerca de R$ 10 bilhões com a Eletrobras quando o governo Lula publicou, em junho de 2024, a Medida Provisória 1.232, que permitia a transferência do controle com flexibilizações regulatórias, em índices como perdas de energia e custos operacionais. A conta, estimada em cerca de R$ 14 bilhões ao longo de 15 anos, recairia sobre os consumidores de todo o país, por meio da Conta de Consumo de Combustíveis. A MP foi editada poucos dias depois de um negócio privado entre a Eletrobras e a Âmbar envolvendo usinas térmicas que vendiam energia à própria Amazonas Energia, o que alimentou a desconfiança da oposição, e o deputado Joaquim Passarinho, do PL, chamou o desenho de escárnio. A Âmbar assinou o termo de transferência no último dia de validade da MP, sob liminar judicial. Depois, o Cade aprovou o negócio, em novembro de 2024, e a Âmbar comprou ainda 12 usinas termelétricas no Amazonas, com 1.559 MW de capacidade, e avançou sobre a distribuidora de Roraima.
Eletronuclear e Angra 3. A J&F comprou uma participação na Eletronuclear por R$ 535 milhões, assumindo debêntures de R$ 2,4 bilhões do termo de conciliação com a União. Com isso, a Eletrobras ficou dispensada de aportar esse valor e de dar garantias a uma dívida de cerca de R$ 7 bilhões com o BNDES e a Caixa, ligada à construção de Angra 3, a obra que a Parte I mostrou consumindo bilhões sem entregar energia.
Outras térmicas. A Eletrobras concluiu a venda de sua última usina termelétrica, a de Santa Cruz (RJ), à J&F, apesar de a empresa não ter concessão válida da planta desde 2015, e a Âmbar fechou a compra da térmica Norte Fluminense, em Macaé, da francesa EDF, em dezembro de 2025.
Também há movimentos no BNDES. Reportagem do Observatório da Mineração, de 2025, registrou que empresas de mineração e logística do grupo J&F seguem na agenda de campeões nacionais e recebem bilhões do banco. Com a compra integral da Eldorado e a expansão em energia, o grupo registrou faturamento de R$ 434 bilhões em 2024, o maior entre os conglomerados privados do país, segundo a imprensa econômica.
Por que isso importa
Não se trata de dizer que todo financiamento do BNDES à JBS foi ilegal. O TCU disse o contrário, e é preciso levar essa decisão a sério. Também não se trata de atribuir ao PT o monopólio das relações incestuosas entre política e negócios, que a própria delação dos Batista desmente ao atingir outros partidos.
O ponto é outro, e tem três camadas. A primeira é o modelo. Um Estado que escolhe vencedores, injeta bilhões em empresas privadas já grandes e as torna sócias do contribuinte cria, por desenho, um terreno em que a proximidade com o poder vale mais do que a eficiência, e isso vale para qualquer governo. A segunda é a opacidade. Em 2017, o grupo confessou ter pago propina a políticos, e a Justiça concluiu depois que as acusações dirigidas a agentes públicos do BNDES não se sustentaram. O cidadão fica sem saber se o dinheiro público foi bem aplicado, se houve favorecimento que a lei não alcança, ou se a prova simplesmente não resistiu ao processo. A terceira é a continuidade. Passados quase vinte anos, a J&F volta a aparecer ao lado do governo petista em negócios de energia cujos custos recaem sobre o consumidor e em operações de crédito do mesmo banco, e a pergunta sobre quem decide, com que critério e com que transparência continua sem resposta satisfatória.
Cabe ainda um alerta ao leitor. O que se disse aqui sobre a MP 1.232, o negócio da Amazonas Energia e as demais operações de 2024 a 2026 é matéria de controvérsia política e regulatória. Nenhuma dessas operações resultou, até o momento, em condenação, e citar um negócio não equivale a imputar crime.
O outro lado. Para os defensores do PT e do BNDES, a política de campeões nacionais seguiu uma estratégia usada por muitos países para criar multinacionais, e a JBS é o caso de sucesso: tornou-se a maior empresa de proteína animal do mundo, gera centenas de milhares de empregos e, segundo o próprio banco, deu lucro de R$ 16,5 bilhões ao BNDES. Lembram que o TCU não encontrou irregularidade, que Mantega e Coutinho foram absolvidos e que a denúncia contra Palocci foi rejeitada. No caso da Amazonas Energia, afirmam que a MP tinha respaldo técnico e buscava evitar a intervenção em uma concessão em colapso, o que prejudicaria os consumidores do Amazonas. Lembram também que, segundo reportagem de 2022, a equipe do então candidato Lula indicava que a política dos campeões nacionais não voltaria. Os críticos respondem que a ausência de condenação não responde à pergunta sobre a conveniência de colocar bilhões públicos nas mãos de um grupo que confessou pagar políticos, que as flexibilizações da Amazonas Energia transferem a conta ao consumidor e que a proximidade entre o grupo e o poder, em governos de partidos diferentes, é exatamente o problema.
A Sombra dos Campeões: Por que a influência dos Irmãos Batista acende o sinal amarelo
A política de “campeões nacionais”, marcas registradas dos governos petistas, nunca foi apenas uma estratégia econômica; foi, acima de tudo, um arranjo de poder. A premissa era simples: o Estado brasileiro, por meio de bancos públicos e fundos de pensão, injetaria bilhões para criar gigantes corporativos capazes de competir globalmente. Anos depois, o resultado dessa engenharia financeira continua gerando debates intensos, sobretudo quando observamos a resiliência e a expansão contínua de grupos como a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, no atual cenário político.
À medida que o poder central consolida parcerias e abre portas para grandes conglomerados, ressurge inevitavelmente a tentação de buscar paralelos internacionais. É comum ouvir críticos comparando o apetite empresarial dos Batista a estruturas tentaculares de controle estatal absoluto.
Em última análise, GAESA, a estatal cubana, e J&F representam os dois lados da mesma moeda do intervencionismo econômico: a substituição do livre mercado por escolhas de gabinete. Se em Havana a GAESA é o braço estatal travestido de corporação para garantir a sobrevivência de um regime, no Brasil a expansão desenfreada da J&F via crédito subsidiado e favorecimento regulatório revela como o capitalismo de laços pode distorcer a livre concorrência. Não se trata de equiparar a natureza jurídica dos dois grupos, mas de reconhecer um vício compartilhado: quando o sucesso empresarial passa a depender mais da proximidade com os corredores de Brasília ou de Havana do que da eficiência operacional perante o consumidor, o mercado deixa de ser um espaço de mérito e se torna um jogo de cartas marcadas.
Parte I – Escândalos (Mensalão)
- O STF concluiu em outubro de 2012 o julgamento da Ação Penal 470 e condenou 11 réus por formação de quadrilha, entre eles Dirceu, Genoino e Delúbio. Fonte: Agência Brasil, via Sul21 (https://sul21.com.br/?p=110222). sul21
- Em 2014, nos embargos infringentes, a maioria do STF absolveu oito condenados do crime de formação de quadrilha, incluindo Dirceu, Genoino e Delúbio. Fonte: Congresso em Foco (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/50794/maioria-do-stf-absolve-condenados-no-mensalao-de-formacao-de-quadrilha). Se o texto não menciona essa absolvição, vale incluí-la, porque o leitor atento vai conhecer o dado. congressoemfoco
Parte VI – Batista, BNDES e J&F
- O MPF denunciou Joesley, Mantega, Palocci e Coutinho por irregularidades em aportes de R$ 8,1 bilhões do BNDES na JBS. Fonte: Folha Vitória (https://www.folhavitoria.com.br/economia/joesley-mantega-e-palocci-sao-denunciados/). folhavitoria
- Em 2017, um parecer técnico do TCU estimou prejuízo de R$ 711 milhões ao BNDES. Fonte: Congresso em Foco (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/40399/bndes-perdeu-r-711-milhoes-com-a-jbs-diz-tcu). congressoemfoco
- Em abril de 2024, o TCU atestou a regularidade das operações do BNDES com a JBS, e o presidente do banco citou lucro nominal de R$ 16,5 bilhões. Fontes: Conjur (https://www.conjur.com.br/?p=782676) e TCU, Acórdão 628/2024 (https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/compra-de-acoes-da-empresa-jbs-pela-bndes-participacoes-nao-gerou-debitos). conjur
- A MP 1.232 foi editada em 13 de junho de 2024, poucos dias depois de a Eletrobras anunciar a venda de 13 termelétricas à Âmbar, do grupo J&F. Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/governo/governo-edita-mp-para-salvar-distribuidora-de-energia-do-amazonas/). poder360
- A Reuters registrou que a MP, embora tivesse respaldo técnico, foi vista com desconfiança pelo momento em que saiu, e transferiu o custo dos contratos das térmicas aos consumidores de todo o país. Fonte: Reuters, via Istoé Dinheiro (https://istoedinheiro.com.br/ambar-assina-termo-para/). Ela serve bem para o “outro lado” do texto. istoedinheiro
- O ministro Silveira negou que a MP tenha sido feita para beneficiar a Âmbar e disse que suas bases eram públicas desde fevereiro. Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-energia/silveira-diz-que-caso-da-venda-de-termicas-e-choro-de-perdedor/). poder360
Parte II – Bolsa Família
- Em janeiro de 2026, o programa pagou 18,77 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 697,77 e investimento de R$ 13,1 bilhões no mês. Fonte: MDS (https://conexaoto.com.br/2026/01/19/bolsa-familia-chega-a-18-77-milhoes-de-beneficiarios-com-valor-medio-de-r-697-77). conexaoto
- O orçamento previsto para 2026 é de R$ 158 bilhões. Fonte: Portal de Prefeitura (https://portaldeprefeitura.com.br/bastidores-da-politica/governo-federal/bolsa-familia-comeca-pagamentos-janeiro/613104/). portaldeprefeitura
Parte V – Defesa
- Segundo o SIPRI, o Brasil gastou 1,1% do PIB em defesa em 2025, contra 2,5% da média mundial. Fonte: Sociedade Militar (https://www.sociedademilitar.com.br/2026/08/enquanto-mundo-bate-recorde-de-us-29-trilhoes-em-defesa-brasil-gasta-so-11-do-pib-menos-da-metade-do-patamar-global-mesmo-com-projetos-bilionarios-para-financiar-afch.html). sociedademilitar
- Em novembro de 2025, Lula sancionou a lei complementar que reserva R$ 30 bilhões em seis anos para projetos estratégicos de defesa. Fonte: Gazeta do Povo (https://www.gazetadopovo.com.br/economia/gasto-militar-brasil-cresce-2025-cortes-defesa/).
Parte I – Escândalos (Mensalão)
- O STF concluiu em outubro de 2012 o julgamento da Ação Penal 470 e condenou 11 réus por formação de quadrilha, entre eles Dirceu, Genoino e Delúbio. Fonte: Agência Brasil, via Sul21 (https://sul21.com.br/?p=110222). sul21
- Em 2014, nos embargos infringentes, a maioria do STF absolveu oito condenados do crime de formação de quadrilha, incluindo Dirceu, Genoino e Delúbio. Fonte: Congresso em Foco (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/50794/maioria-do-stf-absolve-condenados-no-mensalao-de-formacao-de-quadrilha). Se o texto não menciona essa absolvição, vale incluí-la, porque o leitor atento vai conhecer o dado. congressoemfoco
Parte VI – Batista, BNDES e J&F
- O MPF denunciou Joesley, Mantega, Palocci e Coutinho por irregularidades em aportes de R$ 8,1 bilhões do BNDES na JBS. Fonte: Folha Vitória (https://www.folhavitoria.com.br/economia/joesley-mantega-e-palocci-sao-denunciados/). folhavitoria
- Em 2017, um parecer técnico do TCU estimou prejuízo de R$ 711 milhões ao BNDES. Fonte: Congresso em Foco (https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/40399/bndes-perdeu-r-711-milhoes-com-a-jbs-diz-tcu). congressoemfoco
- Em abril de 2024, o TCU atestou a regularidade das operações do BNDES com a JBS, e o presidente do banco citou lucro nominal de R$ 16,5 bilhões. Fontes: Conjur (https://www.conjur.com.br/?p=782676) e TCU, Acórdão 628/2024 (https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/compra-de-acoes-da-empresa-jbs-pela-bndes-participacoes-nao-gerou-debitos). conjur
- A MP 1.232 foi editada em 13 de junho de 2024, poucos dias depois de a Eletrobras anunciar a venda de 13 termelétricas à Âmbar, do grupo J&F. Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/governo/governo-edita-mp-para-salvar-distribuidora-de-energia-do-amazonas/). poder360
- A Reuters registrou que a MP, embora tivesse respaldo técnico, foi vista com desconfiança pelo momento em que saiu, e transferiu o custo dos contratos das térmicas aos consumidores de todo o país. Fonte: Reuters, via Istoé Dinheiro (https://istoedinheiro.com.br/ambar-assina-termo-para/). Ela serve bem para o “outro lado” do texto. istoedinheiro
- O ministro Silveira negou que a MP tenha sido feita para beneficiar a Âmbar e disse que suas bases eram públicas desde fevereiro. Fonte: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-energia/silveira-diz-que-caso-da-venda-de-termicas-e-choro-de-perdedor/). poder360
Parte II – Bolsa Família
- Em janeiro de 2026, o programa pagou 18,77 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 697,77 e investimento de R$ 13,1 bilhões no mês. Fonte: MDS (https://conexaoto.com.br/2026/01/19/bolsa-familia-chega-a-18-77-milhoes-de-beneficiarios-com-valor-medio-de-r-697-77). conexaoto
- O orçamento previsto para 2026 é de R$ 158 bilhões. Fonte: Portal de Prefeitura (https://portaldeprefeitura.com.br/bastidores-da-politica/governo-federal/bolsa-familia-comeca-pagamentos-janeiro/613104/). portaldeprefeitura
Parte V – Defesa
- Segundo o SIPRI, o Brasil gastou 1,1% do PIB em defesa em 2025, contra 2,5% da média mundial. Fonte: Sociedade Militar (https://www.sociedademilitar.com.br/2026/08/enquanto-mundo-bate-recorde-de-us-29-trilhoes-em-defesa-brasil-gasta-so-11-do-pib-menos-da-metade-do-patamar-global-mesmo-com-projetos-bilionarios-para-financiar-afch.html). sociedademilitar
- Em novembro de 2025, Lula sancionou a lei complementar que reserva R$ 30 bilhões em seis anos para projetos estratégicos de defesa. Fonte: Gazeta do Povo (https://www.gazetadopovo.com.br/economia/gasto-militar-brasil-cresce-2025-cortes-defesa/).
A pergunta que atravessa estas seis partes não é apenas quem errou, mas por que o desenho institucional permite que o erro se repita. Quando o Estado escolhe vencedores, injeta bilhões em grupos privados já consolidados e administra estatais como instrumento de poder, a proximidade com o governo passa a valer mais do que a eficiência, e isso independe do partido de plantão. É o raciocínio que Ludwig von Mises desenvolveu ao tratar do intervencionismo: cada intervenção distorce preços e incentivos, e a distorção costuma ser tratada com nova intervenção. Para entender essa lógica em profundidade, leia o artigo sobre Ludwig von Mises e a crítica ao intervencionismo.